Centro

SHARE:

Nenhum outro bairro portenho reflete com tamanha exatidão a ideia de que Buenos Aires é uma cidade frenética, caótica e imprevisível. No primeiro olhar é fácil ficar afobado por causa de sua massa infinita de auxiliares de escritório, táxis e ônibus –buzinhas!– que circulam durante qualquer dia de trabalho. Eles formam a sinfonia urbana em que tudo se une: camelôs, agentes que oferecem câmbio e alguns artistas de rua geniais…

Porém, além do caos inicial, há uma realidade paralela que convive harmoniosamente com o barulho e a fúria. São os típicos portenhos sentados em um bar, tomando um café e lendo o jornal. Ou assistindo, hipnotizados, a um jogo de futebol do domingo repetido na TV. Ou falando com o garçom sobre política. Ou –por que não– olhando pela janela, com a mente perdida em alguma outra esquina…

O CENTRO PORTENHO: UM PERCURSO PELO BAIRRO MAIS NEURÁLGICO DE BUENOS AIRES.

A flora e a fauna do centro portenho são tão ecléticas quanto cativantes. Se você fechar os olhos e tentar imaginar que há uns 250 anos quase não havia nada nesses pampas, é difícil pensar que foi que os conquistadores acharam de interessante. De qualquer maneira, eles não tentaram só uma, mas quatro vezes. E hoje, o Obelisco, ícone máximo da cidade, lembra-nos dessa primeira fundação frustrada de 1536. Elegante e soberbo em seus 67 metros de altura, é curioso que tenha sido muito criticado na época em que foi construído –em um tempo recorde de 31 dias– em 1936. De fato, três anos depois, o prefeito Arturo Goyeneche evitou sua demolição, apesar das críticas e zombarias generalizadas.

Como o centro do universo –uma mentalidade que, aliás, costuma ser atribuída aos portenhos– o Obelisco marca o início e/ou a interseção de muitas das grandes ruas da cidade: a Avenida Corrientes, com seus vários teatros, livrarias e pizzarias, todos eles igualmente imperdíveis; a Avenida Presidente Roque Sáenz Peña, que leva direto para a histórica Praça de Maio; e a emblemática Avenida 9 de Julio, a mais larga de todo o continente americano –onde, além de encontrar-se o inigualável Teatro Colón, é possível se desfrutar de um dos entardeceres mais pitorescos da cidade.

Image title

Depois de tirar as fotos obrigadas, caminhe para a Avenida Presidente Roque Sáenz Peña, conhecida pelos moradores da cidade como “Diagonal Norte”. Este atalho tem mérito próprio, além de ser a forma mais rápida de chegar na Praça de Maio: olhe para cima e fique maravilhado com as fachadas e cúpulas dos prédios –alguns dos mais imponentes de Buenos Aires.

A Praça de Maio foi desenhada como um oase de palmeiras para descansar da voragem da cidade. Porém, desde quase um século atrás, ela se tornou a protagonista e o cenário das grandes batalhas políticas e sociais. Todas as quintas-feiras, por exemplo, se encontram nela as Mães da Praça de Maio com seu tradicional lenço branco –a partir do último golpe militar (1977) elas reclamam pelos desaparecidos políticos, mas essa é outra história que já contaremos.

Da praça você terá a melhor vista da Casa Rosada, a sede do governo nacional. Se você sentir que já conhece a sacada do centro, é porque dela a Madonna interpretou Evita (no filme do mesmo nome), a mulher argentina mais importante e influente do século XX. Tanto ela quanto seu marido, Juan Domingo Perón, davam discursos dessa sacada para as grandes massas que se reuniam para escutá-los. Até hoje, “encher a praça” é um símbolo de força política.

Image title

No entanto, a Casa Rosada não é o único símbolo de poder nessa área. Em torno da praça também se encontram, com toda sua importante arquitetura: o Cabido, o Banco da Nação e a Catedral Metropolitana. Nela, até muito pouco tempo atrás, o Papa Francisco –antes cardeal Jorge Bergoglio– presidia as missas. Hoje, o Museu de Francisco é um highlight, como o mausoleu do General San Martín, que também se encontra dentro da catedral.

Para continuar o percurso há duas opções: fazer compras pelo calçadão da Rua Florida até terminar no shopping Galerias Pacífico –o favorito dos turistas–, ou aprofundar na história argentina, seguindo pela Avenida De Mayo, outra das ruas mais importantes da cidade. Igrejas de antigamente, confeitarias tradicionais, como o Café Tortoni, e prédios impensáveis (como o surpreendente Palácio Barolo, inspirado na Divina Comédia de Dante Alighieri) vão fazer com que você continue entretendo-se até chegar no Congresso da Nação.

Image title
Palacio Barolo


Este trajeto é realmente imperdível e confirma que a melhor maneira de se conhecer o bairro é caminhando sem pressa. Contudo, se você precisar de um descanso, pode experimentar viajando de metrô, com a Linha A, a mais antiga de Buenos Aires. Talvez tenha sorte e consiga viajar em um dos vagões originais, feitos de madeira, que, além do mais, são os mais antigos dos que ainda são usados no mundo inteiro.

O Congresso da Nação tem muitas coisas dignas de serem admiradas, a começar por sua estrutura praticamente copiada do Congresso dos Estados Unidos. Suas visitas guiadas –de graça!– são muito interessantes e incluem o passeio por alguns espaços extravagantes por causa de seu desenho e ornamentação, como sua magnífica biblioteca. Na saída, não perca a Confeitaria El Molino –hoje clausurada– que já foi, durante muitos anos, o ponto de encontro de grandes personalidades nacionais, como Niní Marshall e Carlos Gardel.

Justo quando você achava que o percurso tinha terminado, propomos-lhe uma opção inusual: continue caminhando pela Avenida Callao, dobre para a direita pela Avenida Corrientes e percorra-a até voltar ao ponto de partida: o Obelisco… Ou, se quiser, siga caminhando até “El Bajo” (marcado pela Avenida Leandro N. Alem). É que, quando o horário de expediente acaba e o Centro fica vazio de auxiliares de escritório, uma nova cara do bairro aparece. É a das marquises multicores, a das livrarias abertas até altas horas da madrugada e a das pizzarias, sempre prontas para servir-lhe uma porção deliciosa de pizza de muzzarella e fainá. Não perca essa experiência: por única vez, você vai sentir que toda a cidade é sua. O mais incrível é que é verdade!

O que está acontecendo em #buenosaires